Foto: Pedro Piegas (Arquivo Diário)
A estiagem que atinge a região central do Rio Grande do Sul já impacta diretamente a produção agrícola, a criação de animais e o abastecimento de água no interior. O cenário levou dois municípios a decretarem situação de emergência, enquanto outros dois ainda contabilizam prejuízos para formalizar o pedido. Até o momento, pelo menos 1.316 produtores rurais foram contabilizados como atingidos por perdas na safra e na atividade pecuária.
Tupanciretã
O município de Tupanciretã, maior produtor de soja do Estado, decretou situação de emergência nesta sexta-feira (20), após registrar perdas significativas na safra. Conforme a prefeitura, mais de 70 mil hectares de lavouras foram atingidos, dentro de uma área total plantada que supera 150 mil hectares.

Ao Diário, o prefeito Gustavo Terra (Progressistas) informou que a estimativa preliminar indica redução de cerca de 30% na soja e mais de 42% no milho.
– As chuvas recentes ajudam a conter o avanço das perdas, mas não eliminam o prejuízo. Já registramos uma redução direta de mais de R$ 200 milhões no faturamento do agronegócio. Indiretamente, isso reduz a circulação de recursos no município e impacta outros setores – afirma o prefeito.
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Segundo Terra, o decreto será remetido ao governo do Estado para homologação; em seguida, o município busca reconhecimento também junto à União, o que viabilizaria benefícios como renegociações de dívidas e acesso a mecanismos de apoio financeiro.
Júlio de Castilhos
Em Júlio de Castilhos, o decreto de emergência foi publicado em 12 de fevereiro e tem validade de 180 dias. A estimativa municipal indica que mais de 100 mil hectares foram impactados pela estiagem. O pedido foi encaminhado à Defesa Civil estadual e segue aguardando homologação.

Para o vice-prefeito e secretário municipal de Agricultura, José Antônio Razia, a falta de chuva em períodos críticos – em alguns pontos por até 35 dias – foi determinante para a perda de produtividade na soja, no milho e na pecuária leiteira.
– Além das quebras nas lavouras, tivemos dificuldades no abastecimento de água no interior, o que exigiu transporte de água potável para propriedades rurais – relata Razia.
O decreto busca oferecer apoio administrativo aos produtores, com acesso facilitado a programas como Proagro, que desonera obrigações financeiras em caso de perdas climáticas, e condições para renegociar compromissos junto a instituições financeiras.
Outras cidades também em etapa de levantamento técnico
Segundo a Emater-RS, além de Tupanciretã e Júlio de Castilhos, os municípios de Quevedos e Santiago estão em fase de levantamento de perdas para eventual publicação de decretos de emergência.
O assistente técnico Luís Fernando Oliveira explica que os laudos elaborados quantificam as perdas nas lavouras e nas criações, servindo de base para os pedidos encaminhados à Defesa Civil.
– Esses levantamentos quantificam as perdas e dão base para os decretos que são encaminhados à Defesa Civil – afirma Oliveira.
Produtores relatam perdas de mais de 50%

No campo, agricultores têm observado que a estiagem se traduz em quebras significativas. É o caso de Aírton Balzan, 57 anos, produtor de soja na região de Tupanciretã.
– Teve áreas com mais de 50% de quebra. Ficamos quase 30 dias sem chuva, e agora não tem mais como recuperar porque a soja já está no enchimento de grão – relata o produtor.
Segundo Balzan, as chuvas registradas recentemente não alteram o prejuízo acumulado nos meses anteriores.
Situação em Santa Maria
Em Santa Maria, o distrito de Boca do Monte foi o mais afetado pela ausência de chuva nos últimos 30 dias antes do Carnaval, com reflexos especialmente nas pastagens.
No âmbito municipal, a soja apresenta redução de potencial produtivo, mas a continuidade de chuvas pode manter a produção dentro da média histórica. Já o milho safrinha teve perdas, e parte da produção deve ser destinada à silagem, em função da baixa umidade e da atuação de pragas como a cigarrinha.
Os níveis dos reservatórios de água estão, em geral, dentro da normalidade para o verão, com exceção de pequenos bebedouros que enfrentam dificuldades de captação.
Estiagem e ambiente no campo: reflexos nas lavouras e na pecuária

O cenário climático crítico ocorre em um período em que as lavouras, especialmente soja e milho, estão em fases sensíveis como floração e enchimento de grãos, quando a disponibilidade de água é determinante para o desenvolvimento das plantas. Municípios com forte dependência agrícola sentem os efeitos mais intensamente, e a falta de chuva compromete a expectativa de produção mesmo com precipitações recentes.
Previsão do tempo indica continuidade de períodos secos
A previsão meteorológica indica que o tempo deve permanecer firme no curto prazo, com predomínio de sol e temperaturas elevadas neste fim de semana, sem volumes significativos de chuva, o que mantém atenção no campo diante da falta de precipitação relevante para melhorar a condição das lavouras. A chuva deve retornar apenas entre segunda e terça-feira, com possibilidade de instabilidades mais organizadas na semana que se inicia.